domingo, 19 de fevereiro de 2017

Eu sei, mas não devia
Marina Colasanti

Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.

A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E, porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E, porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E, porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E, à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.

A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora. A tomar o café correndo porque está atrasado. A ler o jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíche porque não dá para almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.

A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra. E, aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja números para os mortos. E, aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz. E, não acreditando nas negociações de paz, aceita ler todo dia da guerra, dos números, da longa duração.

A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.

A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita. E a lutar para ganhar o dinheiro com que pagar. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagar mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra.

A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes. A abrir as revistas e ver anúncios. A ligar a televisão e assistir a comerciais. A ir ao cinema e engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.

A gente se acostuma à poluição. Às salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às bactérias da água potável. À contaminação da água do mar. À lenta morte dos rios. Se acostuma a não ouvir passarinho, a não ter galo de madrugada, a temer a hidrofobia dos cães, a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta.

A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada, a gente molha só os pés e sua no resto do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.

A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se de faca e baioneta, para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que, gasta de tanto acostumar, se perde de si mesma.
(1972)

Marina Colasanti
 nasceu em Asmara, Etiópia, morou 11 anos na Itália e desde então vive no Brasil. Publicou vários livros de contos, crônicas, poemas e histórias infantis. Recebeu o Prêmio Jabuti com Eu sei mas não devia e também por Rota de Colisão. Dentre outros escreveu E por falar em Amor; Contos de Amor Rasgados; Aqui entre nós, Intimidade Pública, Eu Sozinha, Zooilógico, A Morada do Ser, A nova Mulher, Mulher daqui pra Frente e O leopardo é um animal delicado. Escreve, também, para revistas femininas e constantemente é convidada para cursos e palestras em todo o Brasil. É casada com o escritor e poeta Affonso Romano de Sant'Anna.

O texto acima foi extraído do livro "Eu sei, mas não devia", Editora Rocco - Rio de Janeiro, 1996, pág. 09.

Toca Raul!


Toca Raul! Kid Vinil fala sobre os 20 anos sem Raul Seixas
Sexta, 21 de agosto de 2009, 12h31 Atualizada às 12h32
Kid Vinil Especial para o Terra
Talvez um dos maiores legados de Raul Seixas seja esse jargão "Toca Raul!", isso é uma febre desde a década de 80. Em qualquer situação constrangedora ou não, sempre pinta um engraçadinho gritando "Toca Raul!". Lembro que até no meio de show internacional, alguém na platéia soltava o jargão entre uma música e outra e acabava virando uma piadinha. Se há uma falha durante uma discotecagem, logo surge o engraçadinho gritando "Toca Raul!". E tem também aqueles que falam sério durante os shows, pois são fãs de Raul Seixas. Brincadeira ou não esse jargão será eterno.
Mas, o legado de Raul Seixas após 20 anos de sua morte vai muito além disso. Certa vez ouvi Gilberto Gil dizendo que Krig-Há, Bandolo! é um dos melhores discos do rock brasileiro. Concordo plenamente com a afirmação de Gil, o disco lançado em 1973 foi o primeiro álbum solo de Raul Seixas com seu parceiro Paulo Coelho. Nele estava seu primeiro grande sucesso Ouro de Tolo, uma música que tocou à exaustão em todas as rádios do país naquela época.
Recentemente Nasi, o ex-vocalista do IRA!, fez uma releitura de Krig-Há-Bandolo! num show especial que ele apresentou na Virada Cultural de São Paulo. A música de Raul Seixas influenciou bandas famosas dos anos 90, como Raimundos e Chico Science, por exemplo.
Em 1973 Raul Seixas criava a Sociedade Alternativa e durante seus shows de lançamento do LP Krig-Há-Bandolo! foi distribuído um gibi contendo um manisfesto, que eu transcrevo abaixo.
O texto que segue está no manifesto/gibi A Fundação Krig-Ha, distribuído no primeiro show de Raul em SP, em 1973. Escrito por Raul e Paulo Coelho, entre outras pessoas, esse manifesto lança a ideia de Sociedade Alternativa. No ano seguinte, todas as cópias desse manifesto seriam recolhidas pela Polícia Federal e queimadas como "material subversivo". Raul foi preso e torturado pelo Dops (Departamento de Ordem Política e Social) e é "convidado" a se retirar do país, retornando ao Brasil pouco mais tarde devido ao sucesso de seu disco Gita. Veja abaixo a transcrição do texto do manifesto:
* Prefácio - Nós vos saudamos, Maria. Nós Vos Saudamos José. E nós saudamos os artistas brasileiros que tiveram o silêncio do resto do mundo quando seus trabalhos e seus corpos foram censurados, mutilados desaparecidos.
* Manifesto:
1 - O espaço é livre. Todos têm direito de ocupar seu espaço.
2 - O tempo é livre. Todos têm que viver em seu tempo, e fazer jus às promessas, esperanças e armadilhas.
3 - A colheita é livre. Todos têm direito de colher e se alimentar do trigo da criação.
4 - A semente é livre. Todos têm o direito de semear suas ideias sem qualquer coerção da INTELEGENZIA ou da BURRICIA.
5 - Não existe mais a classe dos artistas. Todos nós somos capazes de plantar e de colher. Todos nós vamos mostrar ao mundo e ao Mundo a nossa capacidade de criação.
6 - "Todos nós" somos escritores, donas-de-casa, patrões e empregados, clandestinos e caretas, sábios e loucos.
7 - E o grande milagre não será mais ser capaz de andar nas nuvens ou caminhar sobre as águas. O grande milagre será o fato de que todo dia, de manhã até à noite, seremos capazes de caminhar sobre a Terra.
* Saudação final do 11º manifesto:
- Sucesso a quem ler e guardar este manifesto. Porque nós somos capazes. Todos nós, todos nós somos capazes.
Escrito por: Raul Seixas, Paulo Coelho, Sylvio Passos, Christina Oiticica, Toninho Buda, Ed Cavalcanti
* Kid Vinil é cantor, DJ, radialista, divulgador musical e apresentador de TV e autor do livro 'Almanaque do Rock' (Ediouro)
Especial para Terra