terça-feira, 28 de agosto de 2007

Neruda - Os Enigmas








OS ENIGMAS (tradução)
Perguntastes-me o que fia o crustáceo entre suas patas de ouro e eu respondo-vos: O mar sabe. Dizeis-me o que espera a ascídia no seu sino transparente? O que espera? Eu digo-vos: como vós, espera o tempo. Perguntais-me o que alcança o braço da alga Macrocustis? Indagai-o, indagai-o a certa hora, em certo mar que eu sei. Sem dúvida me perguntareis pelo marfim maldito do narval, para que vos responda de que modo o unicórnio marinho agoniza arpoado. Perguntai-me talvez pelas plumas alcionárias que tremem nas puras origens da maré austral? E sobre a construção cristalina do pólipo baralhastes, sem dúvida, uma pergunta mais, desfiando-a agora? Quereis conhecer a matéria eléctrica das puas do fundo? A armada estalactite que caminha a quebrar-se? O anzol do peixe pescador, a música estendida na profundidade, como um fio na água? Quero dizer-vos que tudo isto sabe o mar, que a vida nas suas arcas é vasta como a areia, inumerável e pura e entre as uvas sanguinárias o tempo poliu a dureza de uma pétala, a luz da medusa e debulhou o ramo das suas fibras corais numa cornucópia de nácar infinito. Não sou senão a rede vazia que adianta olhos humanos, mortos naquelas trevas, dedos acostumados ao triângulo, medidas de um tímido hemisfério de laranja. Andei como vós, escarvando a estrela interminável, e na minha rede, na noite, acordei nu, única presa, peixe preso no vento.
Pablo Neruda



Los Enigmas (Original)


Me habéis preguntado qué hila el crustáceo entre
sus patas de oro y os respondo: El mar lo sabe.
¿Me decís qué espera la ascidia en su campanatransparente?
¿Qué espera?Yo os digo, espera como vosotros el tiempo.
Me preguntáis a quién alcanza el abrazo del alga Macrocustis?
Indagadlo, indagadlo a ciertahora, en cierto mar que conozco.
Sin duda me preguntareis por el marfil maldito
del narwhal, para que yo os conteste de qué modo
el unicornio marino agoniza arponeado.

¿Me preguntáis tal vez por las plumas alcionarias
que tiemblan en los puros orígenes de la marea austral?
¿Y sobre la construcción cristalina del polipo habéis
barajado, sin duda, una pregunta más, desgranándola ahora?

¿Queréis saber la eléctrica materia de las púas del fondo?
¿La armada estalactita que camina quebrándose?
¿El anzuelo del pez pescador, la música extendida
en la profundidad como un hilo en el agua?

Yo os quiero decir que esto lo sabe el mar, que la vida
en sus arcas es ancha como la arena, innumerable y pura
y entre las uvas sanguinarias el tiempo ha pulido
la dureza de un pétalo, la luz de la medusa
y ha desgranado el ramo de sus hebras corales
desde una cornucopia de nácar infinito.

Yo no soy sino la red vacía que adelanta
ojos humanos, muertos en aquellas tinieblas,
dedos acostumbrados al triangulo, medidas
de un tímido hemisferio de naranja.

Anduve como vosotros escarbando
la estrella interminable,
y en mi red, en la noche, me desperté desnudo,
única presa, pez encerrado en el viento.


Poema de Pablo Neruda extraído de "Canto General", 1950.









domingo, 26 de agosto de 2007

UENF

"A derramar melancolia em mim, poesia em mim... Vai, triste canção, sai do meu peito e semeia emoção que chora dentro do meu coração..."


Linda foto (sim, eu que tirei!!!), do Centro de Convenções da UENF.

23 de agosto, último dia do II Festival Art Poiese, por volta das 17:30.

segunda-feira, 20 de agosto de 2007

O corpo jubiloso



Eu entendo que meu corpo não é separado da terra, que meus pés foram feitos para firmar minha posição, que meu corpo tem a forma de um recipiente feito para conter muito.




As mulheres precisam reavaliar o corpo, aprender a refutar idéias e expressões que ultrajam o corpo misterioso, que ignoram o corpo feminino enquanto instrumento de conhecimento.
Extrair grande prazer de um mundo repleto de muitas espécies de beleza é uma alegria na vida à qual todas as mulheres fazem jus. Defender apenas um tipo de beleza é de certo modo não observar a natureza. Não pode haver apenas um tipo de ave canora, apenas uma variedade de pinheiro, apenas uma qualidade de lobo. Não pode haver apenas um tipo de bebê, de homem ou de mulher. Não pode haver apenas um formato de seio, de cintura, um tipo de pele. Destruir o vínculo instintivo da mulher com seu corpo natural subtrai-lhe a confiança. Faz com que ela insista em descobrir se é uma boa pessoa ou não, e baseia sua auto-estima na sua aparência em vez de na sua essência. Ela é pressionada a gastar sua energia preocupando-se com a quantidade de alimento que consome, com os números na balança ou na fita métrica. Essa destruição lhe dá uma idéia fixa e influencia tudo o que ela faz, planeja e prevê. No mundo instintivo, é inconcebível que uma mulher viva absorta desse jeito com sua aparência. Faz total sentido manter-se saudável e forte, cuidar do corpo da melhor forma possível. No entanto, devo admitir que muitas mulheres têm uma "faminta" dentro de si. Não são "famintas" por ter um certo tamanho, formato ou altura; ou por se adequar ao estereótipo: as mulheres têm fome de consideração básica por parte da cultura que as cerca. A mulher "faminta" ali dentro anseia por ser tratada com respeito, anseia por ser aceita, e no mínimo anseia por ser vista sem preconceitos.
Esse estímulo que faz com que a mulher comece a tentar esculpir seu próprio corpo é extraordinariamente semelhante ao processo de escavar a própria terra, queimá-la,
descascar suas camadas, desnudá-la até os ossos. Onde exista uma ferida nas psiques e nos corpos das mulheres, existe uma ferida correspondente no mesmo local na própria cultura e, finalmente, na própria natureza. Numa psicologia de caráter verdadeiramente holístico, todos os universos são interpretados como interdependentes, não como entidades autônomas. Não é de espantar que na nossa cultura coexistam a questão de esculpir o corpo natural da mulher, a questão correlata de entalhar a paisagem e ainda a de retalhar a cultura em partes que
estejam na moda. Apesar de uma mulher não ter condição de parar a dissecação da cultura e das terras da noite para o dia, ela tem condição de interromper esse processo no seu próprio corpo. Uma mulher não pode tornar a cultura mais consciente apenas com a ordem de que se transforme. Ela pode, no entanto, mudar sua própria atitude para consigo mesma, fazendo com que projeções desvalorizadoras simplesmente ricocheteiem.
Isso ela consegue ao resgatar seu corpo.
Ao não renunciar à alegria do seu corpo natural, ao não "comprar" a ilusão popular de que a felicidade só é concedida àqueles de uma certa configuração ou idade, ao não esperar nem se abster de nada e ao reassumir sua vida verdadeira a plenos pulmões, ela consegue interromper o
processo.



Clarissa Pinkola Estés

domingo, 19 de agosto de 2007

Canção para os fonemas da alegria - Thiago de Mello


Peço licença para algumas coisas.

Primeiramente para desfraldareste canto de amor publicamente.Sucede que só sei dizer amorquando reparto o ramo azul de estrelasque em meu peito floresce de menino.Peço licença para soletrar,no alfabeto do sol pernambucanoa palavra ti-jo-lo, por exemplo,e poder ver que dentro dela vivemparedes, aconchegos e janelas,e descobrir que todos os fonemassão mágicos sinais que vão se abrindoconstelação de girassóis gerandoem círculos de amor que de repenteestalam como flor no chão da casa.Às vezes nem há casa: é só o chão.Mas sobre o chão quem reina agora é um homemdiferente, que acaba de nascer:porque unindo pedaços de palavrasaos poucos vai unindo argila e orvalho,tristeza e pão, cambão e beija-flor,e acaba por unir a própria vidano seu peito partida e repartidaquando afinal descobre num clarãoque o mundo é seu também, que o seu trabalhonão é a pena paga por ser homem,mas o modo de amar – e de ajudaro mundo a ser melhor. Peço licençapara avisar que, ao gosto de Jesus,este homem renascido é um homem novo:ele atravessa os campos espalhandoa boa-nova, e chama os companheirosa pelejar no limpo, fronte a frontecontra o bicho de quatrocentos anos,mas cujo fel espesso não resistea quarenta horas de total ternura.Peço licença para terminarsoletrando a canção de rebeldiaque existe nos fonemas da alegria:canção de amor geral que eu vi crescernos olhos do homem que aprendeu a ler.Fonte: Freire, P. 1978. Educação como prática da liberdade, 8a edição. RJ, Paz e Terra. O poema foi originalmente publicado em 1965.

domingo, 12 de agosto de 2007

Frida


Frida Kahlo, 1907-1954, pintora mexicana, dizia ter nascido junto com o México. Sua vida, apesar de marcada por tragédias , revela um profundo sentimento de independência, rebeldia, paixão e sensualidade. Orgulhosa de sua mexicanidade, sempre lutou contra a americanização do seu país. Aos cinco anos teve pólio e aos 18 anos sofreu um acidente de ônibus que perfurou do seu estômago à sua pélvis. Teve que se submeter a 32 cirurgias e inúmeros colete e sistemas mecânicos, como o que retrata o quadro "A Coluna Quebrada", de 1944. Teve um casamento aberto com Diego Rivera, seu companheiro também nas artes, um controverso caso com o político Leon Trostky e com várias outras mulheres.
Na madrugada de 13 de julho de 1954, Frida, com 47 anos, foi encontrada morta em seu leito. No diário, escreveu: "Espero alegre minha partida-e espero não retornar nunca mais. "
Assissta "Frida"(2002), da diretora Julie Taymor.


sexta-feira, 10 de agosto de 2007

Autonomia






Não me entendo. Pois sei que o motivo da minha dor perdurará. Se eu pudesse esquecer a plenitude de tantos instantes, permitiria mais dor?

"...é necessária a nova abolição..." - Cartola






terça-feira, 7 de agosto de 2007

Ponteios


Pontos que contém o infinito!


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Pontear:

v. tr.,
marcar com pontinhos;
coser;
passajar;
alinhavar;

Mús.,
colocar os dedos sobre as cordas dos instrumentos, no lugar onde estão os pontos.