Peço licença para algumas coisas.
Primeiramente para desfraldareste canto de amor publicamente.Sucede que só sei dizer amorquando reparto o ramo azul de estrelasque em meu peito floresce de menino.Peço licença para soletrar,no alfabeto do sol pernambucanoa palavra ti-jo-lo, por exemplo,e poder ver que dentro dela vivemparedes, aconchegos e janelas,e descobrir que todos os fonemassão mágicos sinais que vão se abrindoconstelação de girassóis gerandoem círculos de amor que de repenteestalam como flor no chão da casa.Às vezes nem há casa: é só o chão.Mas sobre o chão quem reina agora é um homemdiferente, que acaba de nascer:porque unindo pedaços de palavrasaos poucos vai unindo argila e orvalho,tristeza e pão, cambão e beija-flor,e acaba por unir a própria vidano seu peito partida e repartidaquando afinal descobre num clarãoque o mundo é seu também, que o seu trabalhonão é a pena paga por ser homem,mas o modo de amar – e de ajudaro mundo a ser melhor. Peço licençapara avisar que, ao gosto de Jesus,este homem renascido é um homem novo:ele atravessa os campos espalhandoa boa-nova, e chama os companheirosa pelejar no limpo, fronte a frontecontra o bicho de quatrocentos anos,mas cujo fel espesso não resistea quarenta horas de total ternura.Peço licença para terminarsoletrando a canção de rebeldiaque existe nos fonemas da alegria:canção de amor geral que eu vi crescernos olhos do homem que aprendeu a ler.Fonte: Freire, P. 1978. Educação como prática da liberdade, 8a edição. RJ, Paz e Terra. O poema foi originalmente publicado em 1965.
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