segunda-feira, 12 de novembro de 2007

terça-feira, 9 de outubro de 2007

Quero escrever o borrão vermelho de sangue

Quero escrever o borrão vermelho de sangue
com as gotas e coágulos pingando
de dentro para dentro.
Quero escrever amarelo-ouro
com raios de translucidez.
Que não me entendam
pouco-se-me-dá.
Nada tenho a perder.
Jogo tudo na violência
que sempre me povoou,
o grito áspero e agudo e prolongado,
o grito que eu,
por falso respeito humano,
não dei.
Mas aqui vai o meu berro
me rasgando as profundas entranhas
de onde brota o estertor ambicionado.
Quero abarcar o mundo
com o terremoto causado pelo grito.
O clímax de minha vida será a morte.
Quero escrever noções
sem o uso abusivo da palavra.
Só me resta ficar nua:
nada tenho mais a perder

Lispector

Que o Deus Venha(Frejat e Cazuza, sobre texto de Clarice Lispector)

Sou inquieta, áspera
E desesperançada
Embora amor dentro de mim eu tenha
Só que eu não sei usar amor
Às vezes arranha
Feito farpa
Se tanto amor dentro de mim
Eu tenho, mas no entanto continuo inquieta
É que eu preciso que o Deus venha
Antes que seja tarde demais
Corro perigo
Com toda pessoa que vive
E a única coisa que me espera
É exatamente o inesperado
Mas eu sei
Que vou ter paz antes da morte
Que vou experimentar um dia
O delicado da vida
Vou aprender
Como se come e vive
O gosto da comida
"Do rio que tudo arrasta dizem violento, mas ninguém chama de violentas as margens que o oprimem" - Bertold Brecht

sábado, 6 de outubro de 2007

Me veja

Asisiti no Cine Clube da UENF em uma data distante. Mas o frisson filosófico perdura.
Encontrei um amigo louco que digitou da legenda este trecho fabuloso (não! ele não fez isso... ahahhaaaa)!
Deleitem-se!

“---Desculpe.---Desculpe.---Podemos começar de novo? Sei que não nos conhecemos... Mas eu não quero ser uma formiga. Passamos pela vida esbarrando uns nos outros sempre no piloto automático, como formigas, não sendo solicitados a fazer nada de verdadeiramente humanos. Pare. Siga. Ande aqui. Dirija ali. Ações voltadas apenas à sobrevivência. Toda comunicação servindo para manter ativa a colônia de formigas de um modo eficiente e civilizado. ‘O seu troco.’ ‘Papel ou plástico?’ ‘Crédito ou débito?’ ‘Aceita Ketchup?’ Não quero um canudo. Quero momentos humanos verdadeiros. Quero ver você. Quero que você me veja. Não quero abrir mão disso. Não quero ser uma formiga, entende?---Sim, não... Eu também não quero ser uma formiga. Obrigado pela sacudida. Tenho andado feito um zumbi... No piloto automático. Não me sinto como uma formiga, mas pareço uma. D. H. Lawrence teve a idéia de duas pessoas se encontrarem e, ao invés de apenas passarem aceitarem o confronto entre ‘suas almas’. È como libertar os deuses corajosos e inconseqüentes que nos habitam.---Parece que já nos encontramos. Estou trabalhando em um projeto. Pode lhe interessar. É uma novela e os personagens são a fantasia de seus atores. Então, pense em algo que sempre quis fazer, a vida que gostaria de ter ou algo do gênero. Colocamos isso no roteiro aí você interage com outras pessoas como se faria em uma novela. Eu também gostaria de exibir isso ao vivo, com os atores presentes. Aí, uma vez que o episódio tenha sido exibido a platéia pode dirigir os atores em episódios subseqüentes, com cardápios. Trata-se de escolhas e de se louvar a capacidade das pessoas de dizerem o que querem ver, e o consumismo, a arte, e valores e se você não gostar, devolva e receba seu dinheiro de volta... Ou apenas participar, entende? Fazer escolhas. E então, você quer fazer?---Sim, parece muito legal. Eu adoraria participar, mas preciso lhe perguntar algo primeiro. Não sei bem como dizer, mas... Como é ser um personagem em um sonho? Porque não estou acordado agora. Eu não uso relógio desde a 4º série. Acho que era esse mesmo relógio. Não sei se você é capaz de responder essa pergunta. Estou apenas tentando entender onde estou e o que está havendo.---E quanto a você? Como se chama? Qual é o seu endereço? O que você está fazendo?---Não me lembro disso agora. Não consigo me lembrar. Mas essa não é a questão, se posso resgatar informação sobre meu endereço ou o nome de solteira da minha mãe, o que seja. Tenho a vantagem, nesta realidade, se posso chamar assim, de uma perspectiva consistente.---Que perspectiva é essa?---Basicamente, sou só eu, lidando com várias pessoas que estão me expondo as informações e idéias que soam vagamente familiares. Mas, ao mesmo tempo, é tudo muito estranho para mim. Não estou em um mundo objetivo e racional. Por exemplo, que tenho voado... É estranho, porque não é um estado fixo. Parece mais com um amplo espectro de consciência. A lucidez oscila. Neste momento, sei que estou sonhando. Estamos até conversando sobre isso. Estou o mais em contato comigo e com os meus pensamentos que já estive até agora. Estou conversando sobre estar em um sonho. Mas, começo a achar que isto é algo para o qual não tenho quaisquer precedentes. É totalmente singular. A qualidade do ambiente e a informação que estou recebendo. Como a sua novela, por exemplo. Essa idéia é muito bacana! Não fui eu quem inventou isso. Está fora de mim, como algo transmitido a mim externamente. Eu não sei o que é isto.---Achamos que somos tão limitados pelo mundo e suas restrições, mas na verdade nós a criamos. Fica-se tentando entender, mas agora que você sabe que esta sonhando, você pode fazer qualquer coisa. Você está sonhando, mas está acordado. Você tem tantas opções. E a vida é isso.---Estou entendendo o que você diz. Depende de mim, eu sou o sonhador. É estranho. Tanto dessas informações que as pessoas têm me passado tem uma conotação tão pesada.---Bem como você se sente?---Às vezes me sinto meio isolado. Quase sempre, sinto-me comprometido, engajado em um processo ativo. O que é estranho. Quase todo tempo estive passivo, sem responder, exceto agora. Me deixei ser lavado pela informação.---Não responder verbalmente, não é, necessariamente ser passivo. Estamos nos comunicando em tantos níveis simultaneamente. Talvez você esteja percebendo diretamente.---Quase todas as pessoas que encontrei e as coisas que quero dizer é como se elas a dissessem por mim, quase na minha deixa. É completo em si mesmo. Na é um sonho ruim. É um sonho ótimo. Mas, é tão diferente de qualquer outro sonho que eu já tive. É como se fosse ‘o’ sonho. Como se estivesse sendo preparado para alguma coisa.”

terça-feira, 28 de agosto de 2007

Neruda - Os Enigmas








OS ENIGMAS (tradução)
Perguntastes-me o que fia o crustáceo entre suas patas de ouro e eu respondo-vos: O mar sabe. Dizeis-me o que espera a ascídia no seu sino transparente? O que espera? Eu digo-vos: como vós, espera o tempo. Perguntais-me o que alcança o braço da alga Macrocustis? Indagai-o, indagai-o a certa hora, em certo mar que eu sei. Sem dúvida me perguntareis pelo marfim maldito do narval, para que vos responda de que modo o unicórnio marinho agoniza arpoado. Perguntai-me talvez pelas plumas alcionárias que tremem nas puras origens da maré austral? E sobre a construção cristalina do pólipo baralhastes, sem dúvida, uma pergunta mais, desfiando-a agora? Quereis conhecer a matéria eléctrica das puas do fundo? A armada estalactite que caminha a quebrar-se? O anzol do peixe pescador, a música estendida na profundidade, como um fio na água? Quero dizer-vos que tudo isto sabe o mar, que a vida nas suas arcas é vasta como a areia, inumerável e pura e entre as uvas sanguinárias o tempo poliu a dureza de uma pétala, a luz da medusa e debulhou o ramo das suas fibras corais numa cornucópia de nácar infinito. Não sou senão a rede vazia que adianta olhos humanos, mortos naquelas trevas, dedos acostumados ao triângulo, medidas de um tímido hemisfério de laranja. Andei como vós, escarvando a estrela interminável, e na minha rede, na noite, acordei nu, única presa, peixe preso no vento.
Pablo Neruda



Los Enigmas (Original)


Me habéis preguntado qué hila el crustáceo entre
sus patas de oro y os respondo: El mar lo sabe.
¿Me decís qué espera la ascidia en su campanatransparente?
¿Qué espera?Yo os digo, espera como vosotros el tiempo.
Me preguntáis a quién alcanza el abrazo del alga Macrocustis?
Indagadlo, indagadlo a ciertahora, en cierto mar que conozco.
Sin duda me preguntareis por el marfil maldito
del narwhal, para que yo os conteste de qué modo
el unicornio marino agoniza arponeado.

¿Me preguntáis tal vez por las plumas alcionarias
que tiemblan en los puros orígenes de la marea austral?
¿Y sobre la construcción cristalina del polipo habéis
barajado, sin duda, una pregunta más, desgranándola ahora?

¿Queréis saber la eléctrica materia de las púas del fondo?
¿La armada estalactita que camina quebrándose?
¿El anzuelo del pez pescador, la música extendida
en la profundidad como un hilo en el agua?

Yo os quiero decir que esto lo sabe el mar, que la vida
en sus arcas es ancha como la arena, innumerable y pura
y entre las uvas sanguinarias el tiempo ha pulido
la dureza de un pétalo, la luz de la medusa
y ha desgranado el ramo de sus hebras corales
desde una cornucopia de nácar infinito.

Yo no soy sino la red vacía que adelanta
ojos humanos, muertos en aquellas tinieblas,
dedos acostumbrados al triangulo, medidas
de un tímido hemisferio de naranja.

Anduve como vosotros escarbando
la estrella interminable,
y en mi red, en la noche, me desperté desnudo,
única presa, pez encerrado en el viento.


Poema de Pablo Neruda extraído de "Canto General", 1950.









domingo, 26 de agosto de 2007

UENF

"A derramar melancolia em mim, poesia em mim... Vai, triste canção, sai do meu peito e semeia emoção que chora dentro do meu coração..."


Linda foto (sim, eu que tirei!!!), do Centro de Convenções da UENF.

23 de agosto, último dia do II Festival Art Poiese, por volta das 17:30.

segunda-feira, 20 de agosto de 2007

O corpo jubiloso



Eu entendo que meu corpo não é separado da terra, que meus pés foram feitos para firmar minha posição, que meu corpo tem a forma de um recipiente feito para conter muito.




As mulheres precisam reavaliar o corpo, aprender a refutar idéias e expressões que ultrajam o corpo misterioso, que ignoram o corpo feminino enquanto instrumento de conhecimento.
Extrair grande prazer de um mundo repleto de muitas espécies de beleza é uma alegria na vida à qual todas as mulheres fazem jus. Defender apenas um tipo de beleza é de certo modo não observar a natureza. Não pode haver apenas um tipo de ave canora, apenas uma variedade de pinheiro, apenas uma qualidade de lobo. Não pode haver apenas um tipo de bebê, de homem ou de mulher. Não pode haver apenas um formato de seio, de cintura, um tipo de pele. Destruir o vínculo instintivo da mulher com seu corpo natural subtrai-lhe a confiança. Faz com que ela insista em descobrir se é uma boa pessoa ou não, e baseia sua auto-estima na sua aparência em vez de na sua essência. Ela é pressionada a gastar sua energia preocupando-se com a quantidade de alimento que consome, com os números na balança ou na fita métrica. Essa destruição lhe dá uma idéia fixa e influencia tudo o que ela faz, planeja e prevê. No mundo instintivo, é inconcebível que uma mulher viva absorta desse jeito com sua aparência. Faz total sentido manter-se saudável e forte, cuidar do corpo da melhor forma possível. No entanto, devo admitir que muitas mulheres têm uma "faminta" dentro de si. Não são "famintas" por ter um certo tamanho, formato ou altura; ou por se adequar ao estereótipo: as mulheres têm fome de consideração básica por parte da cultura que as cerca. A mulher "faminta" ali dentro anseia por ser tratada com respeito, anseia por ser aceita, e no mínimo anseia por ser vista sem preconceitos.
Esse estímulo que faz com que a mulher comece a tentar esculpir seu próprio corpo é extraordinariamente semelhante ao processo de escavar a própria terra, queimá-la,
descascar suas camadas, desnudá-la até os ossos. Onde exista uma ferida nas psiques e nos corpos das mulheres, existe uma ferida correspondente no mesmo local na própria cultura e, finalmente, na própria natureza. Numa psicologia de caráter verdadeiramente holístico, todos os universos são interpretados como interdependentes, não como entidades autônomas. Não é de espantar que na nossa cultura coexistam a questão de esculpir o corpo natural da mulher, a questão correlata de entalhar a paisagem e ainda a de retalhar a cultura em partes que
estejam na moda. Apesar de uma mulher não ter condição de parar a dissecação da cultura e das terras da noite para o dia, ela tem condição de interromper esse processo no seu próprio corpo. Uma mulher não pode tornar a cultura mais consciente apenas com a ordem de que se transforme. Ela pode, no entanto, mudar sua própria atitude para consigo mesma, fazendo com que projeções desvalorizadoras simplesmente ricocheteiem.
Isso ela consegue ao resgatar seu corpo.
Ao não renunciar à alegria do seu corpo natural, ao não "comprar" a ilusão popular de que a felicidade só é concedida àqueles de uma certa configuração ou idade, ao não esperar nem se abster de nada e ao reassumir sua vida verdadeira a plenos pulmões, ela consegue interromper o
processo.



Clarissa Pinkola Estés

domingo, 19 de agosto de 2007

Canção para os fonemas da alegria - Thiago de Mello


Peço licença para algumas coisas.

Primeiramente para desfraldareste canto de amor publicamente.Sucede que só sei dizer amorquando reparto o ramo azul de estrelasque em meu peito floresce de menino.Peço licença para soletrar,no alfabeto do sol pernambucanoa palavra ti-jo-lo, por exemplo,e poder ver que dentro dela vivemparedes, aconchegos e janelas,e descobrir que todos os fonemassão mágicos sinais que vão se abrindoconstelação de girassóis gerandoem círculos de amor que de repenteestalam como flor no chão da casa.Às vezes nem há casa: é só o chão.Mas sobre o chão quem reina agora é um homemdiferente, que acaba de nascer:porque unindo pedaços de palavrasaos poucos vai unindo argila e orvalho,tristeza e pão, cambão e beija-flor,e acaba por unir a própria vidano seu peito partida e repartidaquando afinal descobre num clarãoque o mundo é seu também, que o seu trabalhonão é a pena paga por ser homem,mas o modo de amar – e de ajudaro mundo a ser melhor. Peço licençapara avisar que, ao gosto de Jesus,este homem renascido é um homem novo:ele atravessa os campos espalhandoa boa-nova, e chama os companheirosa pelejar no limpo, fronte a frontecontra o bicho de quatrocentos anos,mas cujo fel espesso não resistea quarenta horas de total ternura.Peço licença para terminarsoletrando a canção de rebeldiaque existe nos fonemas da alegria:canção de amor geral que eu vi crescernos olhos do homem que aprendeu a ler.Fonte: Freire, P. 1978. Educação como prática da liberdade, 8a edição. RJ, Paz e Terra. O poema foi originalmente publicado em 1965.

domingo, 12 de agosto de 2007

Frida


Frida Kahlo, 1907-1954, pintora mexicana, dizia ter nascido junto com o México. Sua vida, apesar de marcada por tragédias , revela um profundo sentimento de independência, rebeldia, paixão e sensualidade. Orgulhosa de sua mexicanidade, sempre lutou contra a americanização do seu país. Aos cinco anos teve pólio e aos 18 anos sofreu um acidente de ônibus que perfurou do seu estômago à sua pélvis. Teve que se submeter a 32 cirurgias e inúmeros colete e sistemas mecânicos, como o que retrata o quadro "A Coluna Quebrada", de 1944. Teve um casamento aberto com Diego Rivera, seu companheiro também nas artes, um controverso caso com o político Leon Trostky e com várias outras mulheres.
Na madrugada de 13 de julho de 1954, Frida, com 47 anos, foi encontrada morta em seu leito. No diário, escreveu: "Espero alegre minha partida-e espero não retornar nunca mais. "
Assissta "Frida"(2002), da diretora Julie Taymor.


sexta-feira, 10 de agosto de 2007

Autonomia






Não me entendo. Pois sei que o motivo da minha dor perdurará. Se eu pudesse esquecer a plenitude de tantos instantes, permitiria mais dor?

"...é necessária a nova abolição..." - Cartola






terça-feira, 7 de agosto de 2007

Ponteios


Pontos que contém o infinito!


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Pontear:

v. tr.,
marcar com pontinhos;
coser;
passajar;
alinhavar;

Mús.,
colocar os dedos sobre as cordas dos instrumentos, no lugar onde estão os pontos.